Domingo, Junho 28, 2009

Por uma cabeça

É com alegria que retomo as postagens do Liperama falando do espetáculo Por uma cabeça, produzido pelo grupo Os Soltos de Teatro e estrelado por três queridas participantes do Grupo de Estudos do Trabalho de Ator da FUNDAJ: Ana Dulce Pacheco, Regina Medeiros e Sofia Abreu. Construído com fragmentos de peças de Nélson Rodrigues, o trabalho consegue demonstrar que, indo além da polêmica que frases como “mulher gosta de apanhar” podem causar, a obra do grande dramaturgo revela filigranas da alma feminina como poucos autores foram capazes de abordar. Numa encenação que ecoa o mesmo tom onírico de textos como Vestido de Noiva e Senhora dos Afogados, Por uma cabeça é sensual, inquietante e cheio de referências do que podemos chamar de uma mitologia da mulher contemporânea. A marca desse espetáculo é o ícone "sapato-de-mulher", pontuando as cenas e demarcando um jogo subjetivo de atemporalidade onde a essência do feminino se eterniza num painel caleidoscópico, como se os anos das últimas seis décadas se transformassem num longo momento presente. Inocência, puberdade, desejo, casamento, maternidade, rotina, adultério, luxúria, velhice e morte, nada escapou aos olhos de Nélson nem à dramaturgia do também encenador da peça, Rafael Almeida, que conseguiu colocar tudo isso em cena de modo coerente e interessante. Esse fato se evidencia no modo provocador como as cenas se intercalam, se complementam ou se chocam, permitindo ao espectador recombinar esses conteúdos na mente, vislumbrando emoções e sentimentos que muitas vezes as palavras pretendem ocultar. Esse efeito encantatório e revelador é calculado e também deve ser creditado ao andamento da encenação, conduzido com segurança por atrizes tão cheias de paixão quanto as personagens que representam. Não me refiro apenas ao talento, até porque cada uma das atrizes tem potenciais específicos e experiências distintas. Refiro-me à dedicação que as equilibra e integra, nivelando vivências e expondo o que cada uma tem de melhor. Isso também se explicita no zelo com cada fragmento, construído cuidadosamente no tocante ao clima, às inflexões, à partitura corporal. Inclua-se aí um belo e requintado plano de luz (de Jathyles Miranda) e uma bem garimpada trilha sonora (também de Rafael Almeida), com sucessos de nomes que marcaram o imaginário feminino brasileiro, como Ângela Maria, Maísa e Dalva de Oliveira. Belo espetáculo. Para se ver mais de uma vez.



































































Domingo, Maio 10, 2009

Criadas... Mal criadas

A Trupe do Barulho está em cartaz com Criadas... Mal criadas, direção de Manoel Constantino e adaptação de Luiz de Lima Navarro a partir da peça As criadas, de Jean Genet. A trama - na verdade um pretexto para a ação da inesgotável veia cômica do grupo - as criadas Clair e Solange armam um plano para ficar com a herança da Madame X. No elenco, uma seleção de experts na dificílima arte da comédia e do improviso: Eduardo Japiassu ("Sulange"), Flávio Luiz (Clair), Jô Ribeiro e Aurino Xavier. Bobby Mergulhão (Madame), que também aparece nas fotos, estava fazendo suas apresentações de despedida, pois viajará para São Paulo a trabalho. Sempre que assisto as peças da Trupe, fico impressionado com a empatia que criam com o público, por mais escrachadas e escatológicas que sejam as piadas e por mais atrevidas que sejam as intervenções com os espectadores. Admiro a Trupe e seus atores. São herdeiros dos milenares cômicos ambulantes, alegria das praças das velhas aldeias, e que hoje, sob o teto dos teatros, continuam a fazer graça e aliviar as tensões das platéias espelhando a face ridícula das dores do mundo.














































































Domingo, Maio 03, 2009

Pesqueira - parte 2

Nas fotos, imagens do belo e rico patrimônio arquitetônico deixado pelas fábricas de doces Rosa (1904-1982) e Peixe (1898-1998). A pujança de ambas foi decisiva na definição da face de Pesqueira (PE), impulsionando a economia local nos anos em que estiveram em funcionamento. A Peixe, por exemplo, foi a primeira indústria instalada no Nordeste, já no final da primeira década do século XX. Consagrou-se, então, como uma das mais importantes do País, com produtos recebendo vários prêmios no exterior. Seu declínio começou por volta dos anos 60, vindo a fechar as portas definitivamente no final desse mesmo século. Hoje seus edifícios principais estão sendo revitalizados para se transformar num grande espaço cultural. Clique aqui e aqui para ver mais informações sobre a história dessas indústrias, sua importância e o impacto delas sobre a cidade e seus habitantes.























































































































































Domingo, Abril 26, 2009

Pesqueira - parte 1

Pesqueira fica no agreste pernambucano, a 215 km de Recife. De clima agradável, tem grande potencial turístico: paisagem de serras, cultura rica de antigos casarios, artesanato refinado (renda renascença, licores e doces caseiros), centros de peregrinação religiosa (Cimbres e Poção) e até surpresas, como um castelo construído por um particular. Nascida como povoado por volta de 1760 e elevada a cidade em 1880, Pesqueira viveu seu apogeu com a implantação de grandes fábricas de doces e conservas, como a Peixe e a Rosa. Hoje com seus 60 mil habitantes, é movida, além do turismo, pela pecuária leiteira e por atividades de comércio e serviços, ainda correndo o mesmo risco de descaracterização de tantas cidades do interior nordestino. Como visitante que se encantou com a cidade, torço para que Pesqueira possa progredir valorizando a marca que a distingue de qualquer cidade, cuidando de seu patrimônio histórico e cultural, orgulhando-se das tradições que lhe dão alma e identidade. Semana que vem, fotos e comentários sobre a bela herança fabril de Pesqueira.